sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Cagots, os últimos intocáveis da Europa

Cagots sendo levados por uma milicia na Idade Média

A última sobrevivente assumida dos cagot traça as raízes do seu povo de párias, que enfrentou séculos de preconceito brutal por razões que ninguém consegue sequer lembrar.

Sentada em sua pequena casa perto de Tarbes, nos Pirinéus franceses, Marie-Pierre Manet-Beauzac fala sobre seus ancestrais.

Para a maioria das pessoas, seria uma experiência agradável. Mas para essa mulher na casa dos 40 anos, mãe de três filhos, a história de sua linhagem é marcada por uma tristeza ímpar: ela pertence a um grupo de párias perseguido por mil anos na França.

Marie-Pierre é uma cagot. Não é surpresa que a palavra não signifique nada para a grande maioria das pessoas.

A história do povo cagot é obscura; para alguns pesquisadores, teria sido deliberadamente apagada.

- Falar sobre os cagots ainda é algo ruim nas montanhas. Os franceses se envergonham do que fizeram conosco; os cagots têm vergonha do que foram. É por isso que hoje ninguém confessa ser descendente dos cagots.

Exceto, unicamente, Marie-Pierre.

Ela é provavelmente a única pessoa no mundo a fazer questão de dizer que tem sangue cagot.

Mas levou muitos anos para que tivesse total consciência do que isso significava.

- Quando eu tive filhos, quis saber de onde eles vinham, o que significa saber de onde eu vim - contou.

- Eu comecei a pesquisar e tracei minha árvore familiar através de gerações e gerações por muitas vilas e cidades dos Pirinéus.

Foi então que notei certos nomes e tendências entre meus antepassados: vários carpinteiros miseráveis, cesteiros, pobres em geral, pessoas que viviam nas áreas "erradas" da cidade. Logo eu me dei conta de que era uma cagot, embora haja muita controvérsia sobre o que, exatamente, isso significa.

Como a própria Marie-Pierre conta, a verdade sobre os cagots é obscura. A primeira menção a esse povo aparece em documentos do século XIII.

Nessa época, os cagots já eram vistos como pertencentes a uma casta inferior, "intocáveis" do oeste da França e do norte da Espanha.

Em tempos medievais, os cagots - também conhecidos como agotes, gahets, capets, caqueux, entre outros nomes - eram segregados dos demais camponeses da região de diversas formas.

Tinham seus próprios assentamentos urbanos, em geral junto à margem do rio mais infestada pela malária.

Esses guetos insalubres eram conhecidos como cagoteries; traços deles ainda são encontrados em comunidades dos Pirinéus, como Campan e Hagetmau.

Segregação era marca cotidiana

Por centenas de anos, os cagots foram tratados como diferentes e inferiores. Em igrejas, eles tinham que entrar por portas específicas (pelo menos 60 igrejas nos Pirineus ainda apresentam entradas "cagot"), tinham pias de água benta em separado, e recebiam a comunhão na ponta de um longo bastão de madeira.

Marie-Pierre acrescenta: - Quando um cagot vinha à cidade, tinha que reportar sua presença com um chocalho. Como os leprosos como os sinos.

Desprovidos de qualquer direito civil ou político, os cagots tinham um cotidiano marcado pela segregação.

Eram proibidos de seguir a maior parte das carreiras. Eram forçados a serem carregadores de água ou lenhadores.

Fabricavam barris para os vinhos e caixões para os mortos. Acabaram se tornando talentosos carpinteiros. Ironicamente, construíram muitas das igrejas dos Pirineus das quais eram parcialmente excluídos.

Algumas das outras proibições impostas aos cagots eram bizarras.

Não era permitido, por exemplo, que andassem descalços, como a maioria dos camponeses, o que acabou dando origem à lenda de que teriam os dedos dos pés unidos, como o de patos.

Cagots não podiam frequentar as mesmas casas de banho usadas pela população em geral. Eram proibidos de tocar os parapeitos de pontes. Eram obrigados a usar sinais que os distinguissem presos em suas roupas.

Marie-Pierre suspira: - Os cagots não tinham permissão para comer ao lado de não-cagots, nem compartilhar pratos. Alguns diziam que era um povo de psicopatas e até de canibais.

Casamentos entre cagots e não-cagots eram praticamente impossíveis.

Ainda assim, alguns casos amorosos ocorreram. Pungentes canções dos séculos XVI e XVII lamentam esses trágicos encontros.

Pés perfurados e mão amputada

Em algumas ocasiões, o preconceito era brutalmente reforçado. No início do século XVIII, um cagot mais próspero foi pego usando a pia reservada para não-cagots numa igreja. Sua mão foi amputada e pregada na porta do templo.

Outro cagot que ousou cultivar sua própria terra (o que era estritamente proibido por lei) teve seus pés perfurados com pregos de ferro incandescentes.

- Se havia qualquer crime no vilarejo, os cagots eram normalmente acusados de autoria. Alguns foram queimados em fogueiras - conta Marie-Pierre.

E mesmo na morte, a discriminação persistia. Os cagots eram enterrados em seus próprios e miseráveis cemitérios; um deles ainda existe em Bentayou-Seree, um pequeno vilarejo ao norte da localidade de Pau.

Mas qual é a origem dos cagots? Por que foram vítimas de tanto preconceito? Sua origem é nebulosa. Parcialmente porque os próprios cagots desapareceram.

Durante a Revolução Francesa, as leis contra o povo foram formalmente abolidas e muitos cagots pilharam arquivos e apagaram deliberadamente os registros de sua ancestralidade.

A partir de 1789, os cagots foram paulatinamente assimilados pela população em geral; muitos teriam emigrado.

Entretanto, alguns registros históricos oferecem intrigantes hipóteses.

Fontes da época os descrevem como baixos, de pele escura e troncudos. Contraditoriamente, outros relatos diziam que eram louros e de olhos azuis. Em "A história das raças malditas", de 1847, Francisque Michel fez um dos primeiros estudos sobre os cagot.

Segundo o pesquisador, eles tinham "cabelo escuro e crespo". Ele também descobriu que pelo menos dez mil cagots viviam dispersos nas regiões de Gasconha e Navarra e ainda eram perseguidos aproximadamente 70 anos depois da casta dos cagots ser abolida.

Desde o trabalho pioneiro de Michel, vários historiadores tentaram resolver o mistério dos cagots.

Uma das teorias sustenta que eles seriam leprosos ou sofreriam de outras doenças contagiosas, o que explicaria as regras de não "tocar" em nada que fosse de uso corrente por não-cagots.

No entanto, essa idéia é derrubada por diversos relatos segundo os quais os cagots seriam perfeitamente saudáveis.

Uma outra idéia, como aponta Marie-Pierre, é que os cagots seriam escravos dos godos, o povo germânico que invadiu a França na Idade das Trevas. A partir dessa teoria, etimologistas deduziram que "ca-got" viria de "cani gothi", isto é, "cães dos godos".

A hipótese, no entanto, não explica as muitas variantes do nome cagot, nem sua distribuição geográfica. Na verdade, o nome cagot provavelmente deriva de "caca", um termo abusivo por si.

Ódio ainda persiste em algumas regiões

No ano passado, uma nova teoria surgiu no livro do escritor britânico Graham Robb, "A descoberta da França". Robb sugere que os cagots eram originalmente um grupo de exímios carpinteiros medievais.

Por essa tese, o preconceito contra eles teria sido gerado pela rivalidade comercial e regimentado com o passar do tempo.

Quem estará certo? O quadro é confuso. Mas Marie-Pierre Manet-Beauzac, "a última cagot do mundo", afirma não ter dúvidas sobre suas origens: - Acredito que os cagots são descendentes de soldados mouros remanescentes da invasão muçulmana da Espanha e da França no século VIII. É por isso que muitos os chamavam "sarracenos" - afirma ela. - Eu sou bem morena e minha filha Sylvia é a mais morena de sua classe.

Sua teoria, da origem muçulmana dos cagots, é defendida por muitos especialistas franceses porque explica o preconceito religioso.

A sua distribuição geográfica estaria provavelmente ligada às rotas de peregrinação de São Tiago.

Marie-Pierre mostra um website onde ela reúne informações sobre a vida dos cagot. Ela aponta para um a lista de cidades relacionadas a "les agotes".

- Alguns gostam de dizer que os cagots desapareceram. Mas isso não é verdade. Quem vai aos arredores de Campan, por exemplo, ainda vê o povo baixo e troncudo descendente dos cagots. O "povo pestilento".

Pergunto a Marie-Pierre se ela me deixará usar a foto de Sylvia e de seus outros filhos. Ela balança a cabeça.

- Desculpe, mas não. Não há problema, para mim, em admitir de onde venho. Mas se as pessoas souberem sobre as origens dos meus filhos, isso pode criar dificuldades para eles.

Ela olha pela janela, para os distantes Pirinéus.

- Em alguns lugares, o ódio persiste.

Mesmo agora. Os cagots podem estar silenciosos, mas ainda assim eu consigo ouví-los.

Fonte: Universal
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