terça-feira, 24 de dezembro de 2013

O chocante uso de armas químicas por Churchill em 1919

Churchill discursa na fábrica de munição de Ponders End, 1916.

O uso de armas químicas na Síria chocou o mundo. Mas é fácil esquecer que países como a Grã-Bretanha já as usaram – e que Winston Churchill foi um eloquente advogado de seu uso.

O segredo era imperativo. O Estado-Maior britânico sabia que haveria ultraje público se se soubesse que o governo pretendia utilizar seu estoque de armas químicas. Mas Winston Churchill, então Secretário de Estado para a Guerra, descartou essas preocupações. Há muito tempo um entusiasta da guerra química, ele estava determinado a usar essas armas contra os bolcheviques russos.

No verão de 1919, 94 anos antes do devastador ataque na Síria, Churchill planejou e executou um ataque químico sustentado no norte da Rússia.

Os britânicos não eram iniciantes no uso de armas químicas. Durante a Terceira Batalha de Gaza em 1917, o General Edmund Allenby disparou 10 mil recipientes de gás asfixiante contra posições inimigas, com pouco efeito prático. Mas nos meses finais da guerra, cientistas do laboratório governamental em Porton, Wiltshire, desenvolveram uma arma muito mais devastadora: o ultra-secreto “Dispositivo M” – uma cápsula explosiva que continha um gás altamente tóxico chamado difenilaminacloroarsina. O responsável pelo projeto, Major-General Charles Foulkes, chamou-a de “a mais eficiente arma química já desenvolvida”.

Testes em Porton mostraram que realmente era uma arma terrível. Vômito incontrolável, tosse de sangue e cansaço instantâneo e absoluto eram as reações mais comuns. O diretor-geral de produção de armas químicas, Sir Keith Price, estava convencido de que seu uso levaria ao imediato colapso do regime bolchevique: “Se usarmos o gás apenas uma vez, não encontraremos mais nenhum comunista a oeste do Vologda”.

O governo não era favorável ao uso dessas armas, para a irritação de Churchill. Ele também sugeriu o uso do Dispositivo M contra tribos rebeldes do norte da Índia. “Sou extremamente a favor do uso de gás venenoso contra essas tribos selvagens”, ele declarou em um memorando secreto.

Churchill criticou seus colegas por sua “má vontade”, declarando que “as objeções da Secretaria da Índia ao uso de gás contra os nativos é absurda. Gás é uma arma muito mais humana do que um projétil de alto-explosivo, e convence o inimigo a aceitar a derrota com uma perda de vidas bem menor do que qualquer outro tipo de guerra”.

Ele encerra seu memorando com uma nota de humor negro. “Por que não é válido que um artilheiro britânico dispare uma cápsula que faça os nativos espirrarem?”, ele pergunta. “É realmente uma grande bobagem”.

Um impressionante número de 5 mil Dispositivos M foram enviados para a Rússia: ataques aéreos britânicos com a arma começaram em 27 de agosto de 1919, tendo como alvo o vilarejo de Emtsa, cerca de 200 km a sul de Arkhangelsk. Soldados bolcheviques foram vistos fugindo em pânico enquanto o gás esverdeado lentamente flutuava em sua direção. Aqueles pegos pela nuvem vomitaram sangue e caíram inconscientes.

Os ataques continuaram em setembro em muitas outras vilas ocupadas pelos comunistas: Chunova, Vikhtova, Pocha, Chorga, Tavoigor e Zapolki. Mas as armas se provaram menos eficientes do que Churchill esperava, parcialmente por causa do clima úmido de outono.

Em setembro os ataques foram suspensos e depois cancelados. Duas semanas mais tarde as últimas armas foram despejadas no Mar Branco. Elas permanecem no leito do mar até hoje.

Fonte: The Guardian
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