quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Múmia Kherima intriga pesquisadores do Museu Nacional

Dezenas de pessoas observam a retirada da tampa de vidro de uma mesa, posicionada no centro de um salão do Museu Nacional, em São Cristóvão.

Sobre ela, agora desprotegida, está o principal artigo da instituição, uma múmia de quase 2 mil anos, com os membros enfaixados individualmente e faixas no peitoral e no cinturão. Um professor estimula os alunos a se aproximarem.

Uma jovem toca nos pés daquele corpo e, em aparente transe, diz que ele pertencia a uma princesa de Tebas — próximo a onde está a cidade de Luxor — chamada Kherima, uma virgem que fora assassinada a punhaladas.

A “revelação”, ocorrida há cerca de 60 anos, foi relembrada nos últimos dias, durante a Semana de Egiptologia sediada na Quinta da Boa Vista, e ilustra a atração e repulsa provocada pelas múmias — uma das mais emblemáticas representações materiais da morte.

Existem apenas nove múmias no mundo que foram enfaixadas e decoradas sobre linho como Kherima, o que lhes dá uma aparência de bonecas.

Como foram encontradas na mesma tumba, estima-se que sejam da mesma família. Normalmente as técnicas de mumificação não eram tão detalhistas, fazendo com que os corpos hoje pareçam-se com pacotes.

Destino desconhecido

Kherima chegou ao Brasil em 1824, dentro de um caixote de madeira. Era o item mais valioso da coleção de antiguidades que Nicolau Fiengo trazia da Europa.

Não se sabe a nacionalidade de Fiengo — seria italiano ou francês —, tampouco o destino de suas peças. Acredita-se que os artigos iriam para Buenos Aires.

O criador da universidade local era um entusiasta de museus e relíquias. Fiengo, no entanto, teria desistido da viagem, devido a confrontos políticos ou a uma epidemia de febre amarela na capital portenha.

Três anos depois, o imperador D. Pedro I arrematou a coleção, depois levada para o museu em São Cristóvão. Foi o início da primeira coleção de relíquias egípcias das Américas.

— A múmia seria do Período Romano, por volta do século I ou II, quando o Egito começava a adotar o cristianismo — conta Antônio Brancaglion Jr, curador da coleção egípcia do museu.

— A lenda diz que ela teria sido morta a facadas, mas não encontramos marcas que validem esta versão. Provavelmente a causa da morte foi por algo que a mumificação ocultou, como uma infecção.

Kherima foi protagonista de uma série de cultos em meados do século passado. Um deles foi em 1955, logo após a morte de Carmen Miranda, nos EUA. O corpo da artista veio embalsamado para o Rio.

Centenas de pessoas entenderam que ela fora “mumificada” e visitaram o Museu Nacional, levando flores à múmia. Enquanto isso, o corpo da Pequena Notável era exposto sem tumultos no Palácio do Catete, então sede da Presidência da República.

Na mesma década, o professor Victor Staviarski, membro da Sociedade de Amigos do Museu Nacional, começou a ministrar cursos de egiptologia e escrita hieroglífica na instituição.

Staviarski recorria à hipnose e levava médiuns para as aulas. A ópera “Aida”, de Giuseppe Verdi, também contribuía para a criação de um ambiente místico.

O professor também reforçou o corpo docente de um curso noturno de Ciências Herméticas — que, entre outras disciplinas, contava com Magia, Forças da Natureza e Astrologia Esotérica.

— No curso de História, Staviarski dava aulas no auditório, com mais de 100 pessoas, e promovia sessões especiais ao lado da múmia. Participei de uma delas em que o professor pôs uma máscara dourada na cabeça dela — conta a arqueóloga Ângela Rabello, do Museu Nacional.

— Alguns alunos sentiram o odor de rosas, mas não foi o meu caso. Um senhor teve um transe durante a aula e se viu navegando em um barco egípcio junto à múmia.

Em reportagens publicadas na década de 1960, Staviarski assegurou que mais de 100 pessoas entraram em transe em frente à Kherima.

Um grupo de alunos queixou-se com a coordenação do Museu Nacional devido à promoção de “experiências parapsicológicas relacionadas com a exposição de egiptologia”.

Brancaglion também viu alunos que sentiram um “mal súbito” quando participavam de uma palestra ao lado de Kherima.

— Curiosamente isso só acontece com esta múmia — diz.— Talvez seja porque sua aparência é mais humana.

A bioarqueóloga Sheila Mendonça, também ex-aluna de Staviarski, defende o professor.

— Hoje seus métodos são considerados controversos, mas, à época, ninguém sabia como conservar uma múmia. Por isso havia o incentivo de que ela fosse tocada durante as aulas — lembra. — A hipnose estava na moda, e Staviarski a usava para impressionar os alunos.

Vice-diretora de Pesquisa e Desenvolvimento Tecnológico da Escola Nacional de Saúde Pública, Sheila acompanhou a tomografia de Kherima.

Segundo a pesquisa, a suposta princesa egípcia teria entre 18 e 20 anos e cabelos curtos e escuros, diferentes dos egípcios.

Seu crânio é semelhante aos dos mediterrâneos, e não ao dos africanos. O cérebro e as vísceras foram retirados durante a mumificação. Os dentes, no entanto, foram preservados. Não havia sinal de doenças.

— Vimos materiais que envolviam o corpo, dando volume às mamas, quadril e abdômen, reforçando o contorno feminino da múmia — destaca Sheila.

— As unhas estavam pintadas e é fácil identificar seus mamilos. Ela, assim como outros membros de sua tumba, tem fraturas nos braços, um processo que deve ter ocorrido durante a preparação do corpo. Os pés foram danificados décadas atrás, quando a peça já estava no museu.

A corrida pelo ‘pó de múmia’

De acordo com Sheila, as múmias começaram a integrar o imaginário europeu no século XVIII. A expansão colonial e o contato com povos estrangeiros mudou os valores do Velho Mundo.

— A Europa passou por um relaxamento de costumes. A morte era vista como algo cada vez mais próximo, uma ideia incentivada pela Igreja e respaldada pelas epidemias de peste — explica a bioarqueóloga.

— Mais pessoas foram ao Egito e o fascínio com as múmias também cresceu. Elas representam um estágio intermediário entre vida e morte. São corpos que não desapareceram, não completaram um processo natural.

As múmias apavoravam a população, mas, segundo Brancaglion, também representavam um negócio lucrativo.

Elas eram destruídas em busca de joias e amuletos. Cabeças, pés e mãos eram vendidos como souvenires; o tronco, despedaçado, rendia um pó usado para a fabricação de tintas, principalmente, de medicamentos. Tratava-se de um artigo comum nas farmácias europeias no século XIX.


Fonte: O Globo Online
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